Autora: Regina Costa da Silveira, filha de Eulita Haesbaert, trineta do Pastor.
O dia em que o Toropi deu vau.
Não era para festejar o dia 1.º daquele ano de 1962, não, era o aniversário da Nilza. Por isso Tia Talita havia madrugado e nos levava a pé ao outro lado do Paço do Toropi, na fazenda do Albino Hoch. Nilza era filha única, dentre a quase meia dezena de irmãos, o Catuta, o Dote, o Dotinho, o Fio... e o primo Moite, que era um dos braços direitos da família, fosse na colheita do arroz, fosse nos cuidados do rebanho de gado. Moite tinha cílios longos e negros, era o alemão moreno cuja sensualidade despertava as primas mais escondidas em seu recato.
Moaite, como o chamávamos, tocava gaita, sabia tocar de ouvido xotes, rancheiras e as mais harmoniosas valsas que tinham o poder de nos levar para lá do Toropi, bem longe, atravessando a barca, os matos e sobressaindo dos cerros, a gente viajava a países distantes, nunca existidos, sem os limites dos mapas que o pequeno Rogério desenhava com precisão em papel de embrulho das compras feitas a granel na venda do Tio Cote ou no bolicho do Seu Orlando Diello. A música só era ouvida ali por aquelas plagas, por ocasião de aniversário, como naquela surpresa que se deu ao cair da noite escura de 16 de dezembro, aniversário da tia Edite, a gorda, em que só o tio Carlinhos tinha ficado de sobreaviso, que abrisse a porteira para os músicos, o Moaite, o da cordeona, o Catuta, o do violão, sem falar no pandeiro, que este era para as mãos do improviso, de algum “índio vago”, disponível entre a gente do Louro, do Campestre, da Vila e até da Chacrinha, que para a festa-surpresa aparecia por lá.
Crente de que a magia do momento pudesse durar pela vida a fora, naquele dia dos seus anos, Nilza e seus olhos eram para as mãos do gaiteiro, subiam pelo teclado da cordeona e iam encontrar os olhos negro-esverdeados como o pêlo do gateado, e de um brilho mágico, feito grãozinhos de romã, olhos ternos, puros de amor, daquele primo-irmão, quase irmão, que almoçava, jantava, dormia e acordava entre seus irmãos, com deveres de trabalhador, mas crédito e aconchego de parente. Às vezes, Nilza trocava de par, Moaite passava a cordeona para o Catuta e a Nilza passava para as mãos enormes do primo que enlaçavam sua cinturinha de retrós, e os dois saíam a dançar num compasso não só de quem anima e abrilhanta com leveza um salão, sumindo entre os outros pares, mas de quem sabia dividir o encantamento entre o olhar e a atenção dos irmãos, e os pulos apertados do coração.
Cruzávamos a pé, que o rio deu vau justo naquela manhã que dava início ao ano de 1962. Tia Talita, a Lila, tinha avisado, que a gente pegasse chinelinhos e tamancos na mão, pisasse devagar nas pedras de cascalho liso e se preciso era para dar a mão para ela. Mas a passagem de um lado ao outro era excitante e misteriosa, e a gente queria mais era ficar no resvalar dos bons solavancos das pedras. Tita fazia pés de gadanho, era a mais engraçada. Marilene, a Querida, mais silenciosa, ria para dentro. Ronaldo e Mauri inventavam botas de barro e limo até a barriga da perna, pisando mais onde rareava o cascalho. Mas óia que o véio Tormes tá de folga hoje, disse a Tia Talita. Olha, Tia, olha lá, a Maruca, lavando o arroz num casco de tatu, meu Deus, por aqui não tem nem gamela, nem bacia, nem um pirex, falei, enquanto a tia se ria olhando pro chão, sacudindo a cabeça, depois dando “buenas” ao barqueiro e à mulher. Tia Talita, a mais velha das Itas, sofrera um espasmo no rosto, quando era ainda nenezinho de colo, nunca quis sair do Louro, nem para ir até Lajeado, quando tio Osvaldo convidou as meninas pra visitarem a tia Emília. Ia aos domingos ao culto na Vila Clara, raras vezes à Mata, que também ainda era vila.
Lá vai o gaúcho Tormes, como meu pai chamava o barqueiro do bote, pois, quando este andava entropigaitado, costumava assim se apresentar para quem ele ajudasse a atravessar o Toropi: “Sou o gaúcho Torme, de Sangrabel, de SAN-GRA-BEL”, repetia orgulhoso. Meu pai arrendava campo do Seu Albino e aproveitava para entregar o jornal A Razão, que chegava todas as tardes pelo Taschetto, a gente lia, e só de manhãzinha é que a família Hoch leria as notícias de Santa Maria. Aí é que meu pai proseava um eito com o barqueiro, contando da última briqueada que tinha feito, coisa que ele em casa repetia, falava de “terneirinho de sobreano”, “terneirinho guacho”, e eu parava para ouvir. Mas o Tormes também ajudava na travessia do cavalo, e às vezes do gadinho, nem sempre manso, que era passado a nado, claro que nesse caso tinha de ser dobrada a gorjeta, e aos gritos tensos de êra, êra, êra, que era jeito e costume de meu pai, bonachão e ao mesmo tempo encolerizado, diante da ajuda-paga do velho Tormes. Na verdade, eu sempre quis passar para o outro lado, varando o rio como meu pai, mas ele nunca deixou que eu fosse lá tomar banho, brincar no mato, fazer foguinho e comida, quando os primos chegavam de São Pedro, de Passo Fundo e Criciúma, e para os do Louro o lugar era pura novidade. A gente tinha mesmo era de pagar os pecados da vida, quieta, calada, in-formada e in-con-formada, emburrada, tomando banho sozinha no tanque escondido atrás da casa, matutando invejas e invenções. “Já te contei que já fui a Porto Alegre?” preguei esta um dia para a prima Luíza, que só me olhou indagativa, ”Já”, respondi, “com meu tio Ítalo, de carona, que ele é caixeiro viajante”. Era pura atochada. Era vontade que passou por verdade. Não me lembro se algum dia a prima me desmacarou de mais esta. Ainda bem que a torneirinha do tanque não devia ser fechada nunquinha, a água, mesmo pouca, era limpinha e assim, em liberdade, podia jorrar o tempo que quisesse, de dia e de noite, e era bom dormir ouvindo-a escorrer e imaginar que ela, saindo da cacimbinha da coxilha, daí ia até o tanque de beber, daí pro tanque de lavar, daí para os copos-de-leite que a mãe plantou – e que o pai um dia se enganou, chamou de copo-de-lírio, a gente riu e ele não achou graça, daí a gente se fechou – depois pro chiqueirinho de porcos, depois, depois...dormir. Às vezes a torneirinha parava, ué, nunca falta água. Era a vó Maurília e o vô Ramiro, vindos de Santa Maria para passear, asseados, cheios de cuidado e muito econômicos que eram – não tinham mais as terras da Timbaúva e viviam agora na cidade com uma casa grande e bem construída, contando apenas com aluguel de chalés e uma pensão do INPS - não se acostumavam com a idéia de ter uma torneirinha o tempo todo a jorrar. Por isso, sempre que os velhos chegavam, minha mãe trabalhava, trabalhava, não descansava, e não dava conta que a cacimbinha nessas ocasiões inundava.
Grande coração, grande alma, foi Tia Talita quem me levou para fazer pela primeira vez a travessia. Era uma manhã de ano novo. Era uma festa, a da Nilza, e eles, os primos, dava gosto da gente ver, estavam apaixonados, quem não viu, só depois se soube da arruaça. O diário da Nilza descoberto, o horror da família toda diante da frase “Eu não te deixo”, quinhentas vezes escrita, como uma teimosia. Só depois é que se soube da fuga, para casa da tia Otília e o tio Artur, que já tinham arrumado pastor e escrivão, longe de irmãos, pai e mãe, estes com ódio mortal de quem foi traído na confiança pelo primo-serviçal, prometeram vingança, não fosse a ida dos noivos pra Sapiranga, no mesmo dia da fuga e do casório, e não se avalie o estrago daquele amor, de primos, quase irmãos...
Tia Talita sabia de tudo, disse, juntando a lágrima do canto de sua boquinha torta, que tinha rezado, abençoado o filho, a sobrinha, queria mais que se fossem mesmo, para além, muito além daqueles matos, que tivessem filhos. Só não falou de amor, que isso era dispensado falar. E a música era agora só pra quem ficasse quieto, calado a ponto de escutar aquele silêncio do rio, profundo, que voltou à época das cheias. O barqueiro Tormes por muito tempo repassou o causo dos noivos fugidos, de fragmentos vividos, com a Maruca e sem ela. Depois, de tudo ele se esqueceu, só repetia: “Eu não me alembro, mas sei que eu mesmo me chamava de gaúcho...”. E o rio que corre até hoje, lambendo as beiras, leva tudo com as enchentes, sem contudo poder arrancar aquelas almas que ali se enraizam e ainda crescem, como a alma da Tia, quietinha, calada, sem dali nunca querer sair.
Já disseram até que há alguém por ali conduzindo o gado sozinho, rebanho de notícias velhas, mais velhas que as do jornal que o velho Hoch recebia, sempre de um dia atrasadas. E que a torneirinha do tempo já não estanca mais com as visitas de longe, mas que jorra para elas verem sem parar, e que o barqueiro, recuperando a memória, tem devolvido tudo, tudinho do que levou pouco a pouco para o outro lado...
Diz-que, a cada manhã de cada ano novo, há sempre alguém que atravessa o rio, a pé ou a nado, com ajuda ou não de barqueiro, de graça ou carecendo de pedágio, para alguma festa, da Nilza ou outra, mas do lado de cá, que o que não falta agora é surpresa para aquela gente toda se encontrar. E dando vau ou não o rio, todos estão tendo um desejo, que já é mais uma certeza: de que sempre há de ter quem dê a mão na travessia.